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Tradição – seguir ou não?

Tradição – seguir ou não?

A palavra tradição encerra em si uma gama de significados e tanto pode ser usada num sentido positivo como algo que se perpetua no tempo de maneira pura e sem contaminações, como pode surgir com o significado de algo estagnado e que não consegue “evoluir”, algo antiquado e ultrapassado, algumas vezes até ligado a preconceitos e discriminações.

Qual dos dois significados mais se aproxima do que vem a ser a verdadeira tradição?

Preliminarmente, vejamos o que diz o Aurélio: (Do lat. Traditione) 1. Ato de transmitir ou entregar. 2. Transmissão oral de lendas, fatos, etc., de idade em idade, geração em geração. 3. Transmissão de valores espirituais através de gerações. 4. Conhecimento ou prática resultante de transmissão oral ou de hábitos inveterados. 5. Recordação, memória.

Talvez fosse mais fácil, até o início do século XX, receber e transmitir um ensinamento tradicional: – estamos falando de yoga, mas poderia ser qualquer outra disciplina esotérica – o guru ensinava ao discípulo, que somente tinha aquela fonte de informação e, após muitos anos de estudo e prática, podia também ensinar, da mesma forma que aprendeu. E assim se mantinha a tradição. Claro que, encontrar um verdadeiro guru, mesmo naquele tempo, era algo muito difícil, desse modo, o conhecimento era passado somente para poucos e pouco disseminado horizontalmente.

Porém, no século XX, especialmente mais perto de seu final, passamos a viver numa comunidade da informação, em que o conhecimento é muito divulgado horizontalmente, porém, naturalmente perdemos em profundidade. Recebemos muita informação, de diversas fontes diferentes, mas dificilmente conseguimos discernir qual a informação válida. Verdades são antagonizadas por contra-verdades e discernir o falso do verdadeiro já não é tão simples.

O verdadeiro conhecimento perdeu-se ou ainda está guardado? Quem detém a tão discutida e exultada palavra “tradição”? O que me insere na tradição? Quanto tempo preciso estudar? Quantas linhas diferentes de Yoga preciso aprender? Existe apenas um caminho verdadeiro?

Com a disseminação do conhecimento, os ensinamentos “secretos” já não são tão secretos assim. Estão acessíveis a qualquer simples mortal. Pode-se encontrar informações sobre qualquer conhecimento tradicional em livros ou até mesmo na internet. As informações estão aí a nosso dispor e basta acessá-las e estar disposto a aprender.

Dito assim, parecer ser bem simples, mas não é bem assim. Com a globalização da informação, podemos ler (ou assistir um vídeo) sobre o yoga e sobre aqueles que o praticam, mas jamais vivenciaremos o que eles vivenciam e aprendem. Boa parte do conhecimento não é passado em palavras ou imagens, é passado pela convivência, pela experiência pessoal e pelo aprendizado direto com um mestre qualificado. A profundidade mística do ensinamento é passada numa linguagem não verbal, pelo exemplo, pelas atitudes, pela maneira como a disciplina transforma o discípulo internamente.

Então, frequentemente observamos deformações do tipo: uma pessoa faz um curso de Hatha Yoga em dois fins de semana nas montanhas, outro sobre mantras numa tarde de sábado, outro de Power Yoga num DVD, aprende umas palavras básicas em sânscrito num livro e finalmente ”investe” num curso de 30 longos dias com um “mestre indiano legítimo”, pago a peso de ouro, claro, falado em inglês, mal traduzido por alguém que entende inglês e não entende yoga ou entende yoga e não entende inglês, e voilá: Junte todas essas informações e já pode se autodenominar professor de yoga e ganhar um dinheirinho com isso. O verdadeiro saber fica fragmentado, disperso, fundamentado no nada, nos conceitos e experiências pessoais somente, sem nenhuma coerência filosófica, sem base em conhecimentos legítimos, sem nenhuma estruturação ou objetivo.

É claro que esse é um exemplo um tanto exagerado, embora real. Na verdade existem muitos profissionais bem intencionados que até procuram aprender de forma séria, mas o que eles encontram em sua busca? Muita informação e cada um apregoando que sua linha de ioga, ou forma de ensinar é a melhor, a mais “científica”, a mais moderna, a que “veio dos Estados Unidos”, etc., etc. O buscador fica confuso e acaba tentando fazer um pouco de tudo, se tiver tempo e dinheiro para tal. Mas, como dizia uma antiga música, “quem sabe de tudo um pouco, não sabe de nada tanto assim…”.

Dessa forma o buscador fica emaranhado num verdadeiro culto à superficialidade, ao conhecimento horizontal e globalizado. Existem grandes praticantes de asanas, mas verdadeiros conhecedores do “espírito” do yoga, muito poucos. Isso sem falar nas grandes “estrelas” do marketing pessoal, que, mesmo questionáveis quanto ao conhecimento, são muito boas em auto-divulgação e mantém seus egos inflados ao falar aos leigos com palavras e significados desconhecidos de maneira elegante e erudita.

É nesse contexto que a palavra tradição adquire um significado de fundamental e insubstituível importância. Ter a oportunidade e o privilégio de entrar em contato com um ensinamento tradicional verdadeiro não pode nem deve ser desperdiçado. Esse é o caso do Dakshina Tantra Yoga. Ao aprendermos essa disciplina, estamos recebendo um conhecimento realmente puro, no sentido que vem sendo passado diretamente de guru a discípulo e nos chegou diretamente da Índia através de uma linhagem legítima. Claro que a palavra pureza está aqui empregada não num sentido virginal, intocado. Por mais que tentemos preservar a tradição do aprendido, o que aprendemos é dinâmico, não estático e está sujeito ao que conseguimos absorver de nosso professor e ao modo como nossa personalidade individual lida com isso e o passa adiante. Mas, independente disso, estamos falando de uma linhagem de ensinamento estruturada e mantida assim por alguns milhares de anos.

Então, qual nossa atitude, como professores, diante da magnitude dessa missão? Entendo que, inevitavelmente, com o advento da experiência pessoal, chegará um tempo em que poderemos “criar” sobre o que aprendemos, acrescentando aqui ou suprimindo ali, algo de acordo com as necessidades de nossos alunos. Acho que esse é um caminho natural. Por que não acrescentar algum conhecimento de outra disciplina que, com a consolidação do aprendizado, claro, pode tornar mais efetivo o resultado? Acho que essa seria um caminho natural e válido.

Mas nesse caso, onde irá parar a tradição? Não estarei eu, dessa forma, sendo infiel ao que aprendi? Estarei deformando e conspurscando a tradição?

Acho que aqui podemos separar duas coisas a fim de obter mais clareza.

Uma é a minha prática pessoal como professor, em que vou usar todos os instrumentos de que disponho para ajudar meu aluno a superar suas limitações. Essa será a minha proposta pessoal e devo usar com esse objetivo todos os instrumentos de que disponho, incluídos aí minha experiência de vida, minha forma de ver o mundo, minha personalidade, das quais não posso me dissociar.

Mas, e se me proponho a ensinar outros a ensinar? Aí a coisa já muda um pouco de figura. Pois seria excessivamente pretensioso interferir com minha visão pessoal, que afinal, embora sirva para mim de forma bastante satisfatória, não deve interferir em algo que é muito maior. Algo que foi aprendido e retransmitido por gerações e gerações, mantendo sua estrutura e finalidades básicas intactas. Então, nesse caso, devo voltar à tradição aprendida, no máximo possível sem interferências (se é que isso é possível) e deixar que cada um a absorva e transmute o conhecimento da melhor forma para si. Posso até acrescentar algum toque pessoal, afinal ainda não me livrei do ego totalmente… Mas devo deixar claro o que vem da tradição legítima e o que é minha criação ou alguma técnica retirada de outra linha ou outra disciplina aprendida em paralelo, a fim de não macular o que foi originalmente por mim aprendido.

Para terminar, gostaria de acrescentar uma história (tradicional, claro) da Índia, que fala exatamente sobre isso, o ensinamento e a maneira como cada um de nós o absorve.

“Uma História Indiana

Um homem vai a um sábio e lhe pergunta, como não podia deixar de ser, qual é o significado da vida. O sábio fez um breve sumário da visão vedanta, ou seja, que o mundo inteiro não é nada, a não ser Brahma ou um Deus. E mais, que a própria consciência presente é uma com Brahman. O verdadeiro Eu está em uma identidade suprema com Deus. Como Brahma cria tudo, e como o Eu mais elevado é uno com Brahma, então o Eu mais elevado tudo cria.

E lá se foi o homem, convencido de que tinha entendido o verdadeiro significado da vida, ou seja, que o Eu mais profundo é realmente Deus e cria toda a realidade. No caminho de casa, ele decide testar essa idéia maravilhosa. À frente dele vem um indivíduo cavalgando um elefante. O homem pára no meio da estrada, convencido de que, se ele é Deus, o elefante não pode machucá-lo. O indivíduo que cavalgava o elefante começou a gritar: “Saia da frente! Saia da frente!” o homem, porém, nem se moveu – e foi atropelado pelo elefante.

Mancando, o homem voltou então ao sábio, e explicou que, como o Brahma ou Deus é tudo, e como o seu Eu é uno com Deus, o elefante não deveria tê-lo machucado.

“É claro que Deus é tudo”, disse o sábio, “então, por que você não ouviu quando ele lhe disse para sair do caminho?”.

(extraído do livro Uma Breve História do Universo de Ken Wilber – Ed. Nova Era).

 Ricardo Coelho Soares – Março/2005

3 comentários em “Tradição – seguir ou não?

  1. Olá Ricardo!!Muito boa elucidação. Suas citações foram bem colocadas quando menciona “que o buscador fica emaranhado num verdadeiro culto a superficialidade ao conhecimento horizontal e globalizado” penso que este mesmo buscador, dependendo de sua maturidade espiritual, tem realmente necessidade de “criar ” sobre o que aprendeu, acho que a criação, sempre é natural. Parece-me um caminho natural e muito válido, pois a vida é um eterno movimento; e nesse movimento, tudo vai rumo ao crescimento e aperfeiçoamento, muito embora em movimento de transição, da-se a desordem; que, seguirá para a verdadeira ordem já modificada, para que possamos perceber, o aperfeiçoamento.Creio que somos profundamente a Energia Divina e a Vida Universal; porém, como uma jóia valiosa no charco, para que apareça seu brilho, há que se aperfeiçõar, transformar e conscientizar as muitas camadas criadas pelo nosso ego doente e carente pela nossa falta de consciencia dessa energia. Precisamos ter muita coragem e honestidade para destruir nossos egos ilusórios, a fim de termos acesso ao nosso verdadeiro EU,. Precisamos nos acolher com respeito e amor a nós mesmos, a fim de termos contato verdadeiro com as nossas “mazelas”, para podermos ultrapassa-las . Assim, a medida que formos ultrapassando cada dificuldade de nosso sentir, avançaremos em outras vivencias sem querer mascará-las . Colocar nossas personalidades de acordo com nossos verdadeiros eus.É realmente um grande e profundo saber do DTY. cada pessoa, irá assimilar, de acordo com suas necessidades e evolução. Namastê, Lucinda (turma Krisna-2011)

  2. MUito bom!! Ótimo texto. De uma maneira clara ,verdadeira e despretensiosa me passou a idéia de como lidar com essa infinidade de conceitos que vão sendo derramados em nossas vidas. Eu me senti mais amparada nas minhas indagações, principalmente nas que dizem respeito aos meus anseios de seguir o verdadeiro Yoga…. “será possível nos tempos atuais, vivenciar tudo aquilo que é descrito pelos Mestres? O Yoga passado por esses Grandes Mestres, ainda cabe nos dias atuais ?? De que forma? …” Obrigado por mais uma luz que clareia a escuridão.

  3. Excelente seu texto Ricardo. Muito lúcido, claro e didático!
    Orgulhosa do meu professor!
    Bj. Gabriela Muñoz.

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